Começamos o encontro do dia 11 com um aquecimento em duplas. O espaço modificara-se por conta da luz, dois refletores ligados no fim da lateral do palco, criavam uma atmosfera lúdica, quente e acolhedora. Em duplas fizemos um aquecimento diferente, com música ao fundo, mas sem palavras, apenas sentindo e ajudando o colega. Foi aí que começamos o contato com o outro, o toque, o sentir.
Foram distribuídos panos retangulares para todas as duplas. Começamos a nos alongar usando-os e depois a brincadeira foi fluindo naturalmente. Saímos das duplas para uma interação livre. Essa brincadeira com os panos o tempo todo em movimento e se transmutando em coisas além de simples panos, deve ter criado uma plástica interessante, com a colaboração da bela iluminação.
Depois de um tempo, fomos vendados, e sinto que foi aí que mais procuramos o toque do outro, a pele, o calor alheio. Foi nesse momento, principalmente nesse início, que buscamos nos sentir acolhidos. Notei que ficamos bastante juntos, devíamos estar todos muito próximos. A ideia era que esse acolhimento não fosse só pelo sentido de proximidade, mas que se manifestasse também na saudade, na distância. E assim, saíamos do conforto dos toques, abraços e reconhecimentos para buscarmos a distância, um bocado de solidão, ainda que efêmera. Vinha a saudade, e com ela voltávamos para o aconchego do grupo. Cada um ganhou um presente: o líquido simbólico, vida, magia, clareza. Assim, redescobríamos o toque e o outro através da água. Deixamo-nos levar pelo seu encanto e significado, até onde era necessário para sentir e criar essas relações de primitividade, maternidade, misticismo, humanidade, acolhimento, etc.
Mais tarde fomos conduzidos até uma fonte de água quentinha, e aí a interação foi ainda maior, surgiram sons que pareciam vir de pequenas criaturas fofinhas e risonhas, admiradas com aquela fonte.
Legal notar como tudo era muito espontâneo e sensorial. As reações vinham naturalmente.
De repente, senti que me tiravam a venda e eu voltava (um pouco) a um mundo (um pouco) mais real.
Os outros se relacionavam entre si e com a fonte de água, a bacia. Notei que foram unindo os panos (também usados como vendas) e formando uma espécie de corrente. E que com ela, fechou-se um círculo em volta de todos os atores-seres-criaturas e da fonte.
Iniciou-se um jogo de equilíbrio, forças e trocas com a corrente. Puxávamos de um lado para o outro, nos desequilibrávamos nos obrigando a ir para outra parte da corrente, nos arriscávamos.
Ficamos um bom tempo nessa dinâmica, até que foram tentando trazer a corrente para o chão, e depois o Diego se enrolou nela, ficou preso e à mercê do movimento do grupo.
Quando ele conseguiu se desprender e voltar ao grupo, saiu, chamando a atenção dos outros. Saiu como um animal que escapa do cativeiro, uma fera. Depois veio e me levou. Senti-me também dominada por aquela energia, como um animal, um ser primitivo.
Depois, quando estávamos todos nessa situação, o foco que nos chamou foi a luz, como uma luz no fim do túnel, uma saída das cavernas. Nos aproximamos, nos reconhecemos e travamos contato com essa luz, esse calor diferente do outro ao qual estávamos já acostumados, contrastando com a água, molhada, úmida, mais fria por excelência. Apagou-se a luz. As criaturas, assustadas, admiradas, emitiam sons também primitivos e que remetiam à natureza. Jogamos algumas palavras sobre o que rolou no espaço. Assim fomos fechando a convivência criativa da água, o símbolo maternal, o aconchego, esse elemento tão vivo e tão inerente à todas as criaturas.
Depois veio a parte mais difícil do encontro: desfazer os nós e limpar o espaço.
terça-feira, 13 de abril de 2010
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